O celular que distrai durante o almoço, o tablet que acalma no meio de uma crise, os vídeos que mantêm os pequenos quietos enquanto você termina o trabalho. Para muitas mães, a tecnologia se tornou parte da rotina com os filhos quase sem perceber — foi entrando aos poucos, resolvendo situações do cotidiano, até se transformar em presença constante. Mas será que estamos realmente no controle dessa relação?
A verdade é que a tecnologia, por si só, não é vilã na vida das crianças. O problema surge quando ela toma o lugar da presença e da orientação dos adultos, em vez de ser uma ferramenta acompanhada de perto. Dados recentes da Organização Mundial da Saúde para a Europa mostram crescimento no uso problemático de redes sociais entre adolescentes — um alerta que merece atenção, mas sem pânico.
O que revelam os dados da OMS Europa
Em setembro de 2024, o Escritório Regional da OMS para a Europa publicou os resultados do estudo Health Behaviour in School-aged Children (HBSC), que acompanha estudantes de 11, 13 e 15 anos em países da Europa, Ásia Central e Canadá. Os números chamam atenção:
- o uso problemático de redes sociais saltou de 7% em 2018 para 11% em 2022;
- entre as meninas, o índice chegou a 13%; entre os meninos, ficou em 9%.
É fundamental entender o que esses números significam. O termo “uso problemático” se refere a comportamentos como dificuldade em controlar o tempo de tela, abandono de outras atividades, conflitos familiares e desconforto ao ficar desconectado. Não se trata de um diagnóstico clínico e não deve ser confundido com dependência. Além disso, os dados não incluem o Brasil: a pesquisa foi feita com estudantes de outros países e não pode ser aplicada diretamente à nossa realidade.
Mesmo assim, a tendência preocupa: o aumento em apenas quatro anos e a diferença entre meninas e meninos mostram que a experiência digital não é igual para todo mundo.
Usar a tecnologia ou ser controlada por ela
Existe uma diferença enorme entre uma criança que usa a tecnologia para aprender, criar, se comunicar com familiares distantes ou explorar novos interesses e aquela que passa horas rolando feeds sem direção, apenas preenchendo tempo vazio. A distinção não está no dispositivo em si, mas em três fatores:
- Propósito. Existe uma razão clara para aquele uso, ou é apenas para matar o tempo?
- Limite. Há um momento definido para começar e terminar, ou o uso só acaba quando algo externo interrompe?
- Companhia. Você sabe o que seu filho está vendo, conversa sobre isso e está por perto quando algo o incomoda?
As plataformas digitais são projetadas para capturar e manter a atenção. Se até nós, adultos, temos dificuldade em resistir a esse design, imagine crianças e adolescentes, que ainda estão desenvolvendo a capacidade de autorregulação. Eles precisam de ajuda para construir esse freio interno.
Sinais que pedem atenção
Sem transformar cada comportamento em motivo de alarme, alguns sinais merecem uma conversa mais séria:
- reações intensas de irritação ou crises quando o aparelho é retirado;
- abandono de brincadeiras, amizades ou atividades que antes eram prazerosas;
- sono prejudicado por uso noturno de telas;
- segredo excessivo sobre o que faz on-line;
- queda persistente no desempenho escolar;
- comparações constantes com outras pessoas nas redes, acompanhadas de tristeza ou baixa autoestima.
Nenhum desses comportamentos isoladamente indica um problema grave. É o conjunto, a intensidade e a duração que vão mostrar se basta ajustar a rotina ou se é hora de buscar ajuda profissional.
O que você pode fazer como mãe
- Combinar regras em vez de apenas impor. Defina horários, estabeleça lugares sem tela (como o quarto e a mesa de refeições) e explique o motivo dessas escolhas.
- Adiar quando possível. Quanto mais tarde as redes sociais chegarem à vida do seu filho, mais preparado ele estará para lidar com elas.
- Estar presente. Assista junto, jogue junto, pergunte sobre o que ele vê. A mediação acontece na conversa, não apenas no controle parental automático.
- Dar o exemplo. As crianças aprendem muito mais observando o que fazemos do que ouvindo o que dizemos.
- Oferecer alternativas reais. Tempo livre sem tela precisa ter conteúdo: brincadeiras, convivência, contato com a natureza, até mesmo o tédio criativo.
Perguntas para você refletir
- Em que momentos do dia a tela entra na rotina do seu filho por necessidade sua, e não por escolha dele?
- Você sabe quais aplicativos e conteúdos ele mais consome?
- Como ele reage quando precisa desligar?
Quando procurar ajuda profissional
Se o uso de tecnologia vier acompanhado de isolamento persistente, sofrimento intenso, mudanças importantes no sono ou na alimentação, ou sinais de que a criança está em situação de risco on-line, procure orientação do pediatra, da escola e de um profissional de saúde mental. Pedir ajuda cedo faz parte do cuidado, não é sinal de fracasso.
Para entender melhor como os hábitos de conexão começam a se formar ainda na infância, confira também Ansiedade por notificação: origem na infância.
Referências
- Organização Mundial da Saúde, Escritório Regional para a Europa. “Teens, screens and mental health”. Comunicado de 25 de setembro de 2024. who.int/europe/news/item/25-09-2024-teens–screens-and-mental-health.
- OMS Europa / HBSC. A focus on adolescent social media use and gaming in Europe, central Asia and Canada. Health Behaviour in School-aged Children International Report, 2024.


