Você já percebeu que tem evitado abrir o jornal pela manhã? Ou que passa rapidamente pelas manchetes sem realmente ler? Talvez tenha desativado as notificações de aplicativos de notícias e sentido um alívio imediato. Se identificou com alguma dessas situações, saiba que você não está sozinha: esse comportamento tem sido estudado por pesquisadores e ganhou até um nome específico — news avoidance, ou evitação de notícias.
De acordo com o Digital News Report 2025, produzido pelo Reuters Institute for the Study of Journalism da Universidade de Oxford, 40% das pessoas entrevistadas nos mercados analisados afirmam evitar notícias às vezes ou com frequência. Esse percentual é similar ao do ano anterior e representa um salto considerável em relação aos 29% registrados em 2017. Mas atenção: os motivos por trás desse afastamento não são falta de interesse, e sim o impacto negativo no humor, a sensação de sobrecarga e a percepção de impotência diante dos acontecimentos.
O que revelam os dados da pesquisa
O Digital News Report é uma pesquisa anual realizada online com usuários de internet em diversos países. Um de seus principais diferenciais é a possibilidade de acompanhar tendências ao longo dos anos, não apenas registrar um momento isolado.
Dois números chamam atenção:
- Crescimento da evitação seletiva. O percentual de pessoas que dizem evitar notícias às vezes ou com frequência saltou de 29% em 2017 para 40% em 2025.
- Mudanças no Brasil. Segundo a série histórica do relatório para o país, a proporção de entrevistados que afirmava usar notícias online ao menos uma vez por semana era de 91% em 2015 e caiu para 74% em 2024. O próprio instituto alerta que a amostra brasileira é composta por usuários de internet, com perfil mais urbano, e que houve mudanças de método e de composição da população conectada ao longo do tempo. Ainda assim, o dado aponta para uma tendência de distanciamento.
É importante destacar: evitar notícias não significa necessariamente deixar de se informar. Muitas mulheres continuam acompanhando determinados assuntos, mas passam a escolher quando, quanto e por quais canais desejam receber informações.
Por que a informação tem nos cansado tanto
Ao longo das edições do relatório, algumas razões aparecem de forma recorrente para explicar a evitação: o noticiário afeta o humor de maneira negativa, existe um excesso de notícias, a cobertura é repetitiva ou focada demais em guerras e política, e as pessoas sentem que não podem fazer nada a respeito. A questão da confiança também pesa: quando há desconfiança sobre a imparcialidade ou a precisão das informações, ler se torna um esforço.
Do ponto de vista do comportamento, esse cenário faz todo sentido. Nossa mente processa melhor notícias difíceis quando consegue organizá-las de alguma forma — compreender, conversar sobre elas, tomar alguma atitude. Quando o volume é constante e a sensação de impotência prevalece, afastar-se funciona como uma proteção. O problema não está em fazer uma pausa, mas sim quando essa pausa se transforma em desconexão total daquilo que impacta nossa vida e nossa comunidade.
Evitar notícias é um sinal, não um problema de caráter
É fácil julgar quem evita notícias como alguém alienado. Mas essa visão é injusta e pouco produtiva. A evitação pode indicar:
- sobrecarga — excesso de fontes, muitos alertas e pouca organização;
- sofrimento acumulado — períodos de crise coletiva deixam marcas emocionais, e a pessoa busca alívio;
- descrença — a sensação de que nada muda ou de que a informação é manipulada;
- falta de utilidade percebida — notícias que não ajudam em nenhuma decisão do dia a dia.
Cada uma dessas razões exige uma resposta diferente. Para quem está sobrecarregada, menos volume e mais seleção. Para quem está sofrendo, pausas conscientes. Para quem desconfia, fontes com metodologia transparente.
Como se manter informada sem se esgotar
Algumas estratégias ajudam a reduzir o desgaste sem levar ao isolamento total:
- Escolher horários. Ler notícias em um ou dois momentos do dia, em vez de recebê-las o tempo todo.
- Reduzir alertas. Manter notificações apenas para o que é realmente urgente.
- Preferir profundidade a volume. Uma boa reportagem por dia costuma informar mais do que dezenas de manchetes.
- Diversificar com critério. Poucas fontes confiáveis, com correções públicas e autoria clara.
- Conversar sobre o que leu. Notícias difíceis pesam menos quando são elaboradas com alguém.
Questões para refletir
- Você evita notícias por escolha ou por exaustão?
- Depois de ler o noticiário, você se sente mais informado ou apenas mais ansioso?
- Quais temas você precisa acompanhar porque afetam diretamente sua vida?
Quando o cansaço pede ajuda profissional
Se o contato com notícias provoca, de forma persistente, angústia intensa, insônia, irritabilidade ou sensação constante de ameaça, vale conversar com alguém de confiança e, se o mal-estar continuar, buscar orientação profissional. Não se trata de diagnóstico, e sim de reconhecer quando o desgaste deixou de ser passageiro.
Sobre o modo como a busca constante por atualização se instala no cotidiano, veja também O que é ansiedade por notificação.
Referências
- Reuters Institute for the Study of Journalism. Digital News Report 2025. Universidade de Oxford, junho de 2025. reutersinstitute.politics.ox.ac.uk.
- Reuters Institute for the Study of Journalism. Digital News Report — páginas de país, Brasil (séries históricas). reutersinstitute.politics.ox.ac.uk/digital-news-report.


