Ela tem uma família, divide a cama todas as noites com o parceiro e, mesmo assim, aguarda ansiosa pela mensagem de alguém que não é ele. Quando a notificação ilumina a tela, algo se acende junto: a sensação de ser vista, desejada, interessante. Antes de dormir, ela apaga a conversa. Pela manhã, a culpa aparece — mas à tarde, a espera recomeça.
O flerte escondido pelo celular pode estar ligado tanto ao prazer quanto à validação, fantasia, busca de autonomia ou falta de atenção na relação. Não é um comportamento exclusivo de mulheres e não significa, necessariamente, intenção de encontro físico. Ainda assim, quando acontece às escondidas, mexe com limites e confiança.
Um comportamento que atravessa gêneros
Homens e mulheres flertam pelo celular, e estudos sobre infidelidade online identificam o padrão em ambos os gêneros. Mas há aspectos específicos quando se fala de mulheres: muitas relatam que, na vida doméstica, deixam de ser vistas como alguém desejável e passam a ser reconhecidas apenas pelo que fazem pelos outros.
Entre o prazer e a necessidade de atenção
Frequentemente, as duas coisas coexistem — e outras motivações também entram em jogo.
- Validação. Uma mensagem de elogio responde a uma pergunta silenciosa: “eu ainda sou interessante?”. Quando a autoestima está frágil, esse retorno pode virar quase uma necessidade.
- Erotismo e fantasia. O celular cria um espaço protegido onde é possível imaginar sem as consequências do real. A outra pessoa existe, em boa parte, na imaginação.
- Atenção. Alguém que pergunta “como foi seu dia?” e realmente espera a resposta pode preencher uma falta que a rotina abriu.
- Autonomia. Para algumas mulheres, aquele espaço é o único que não pertence à família, ao trabalho ou às obrigações — um lugar onde ela é só ela.
- Excitação do segredo. O escondido tem sua própria intensidade. Às vezes, o que atrai é menos a pessoa e mais o risco.
O que a psicanálise diz sobre isso
Freud falou do princípio do prazer — a tendência de buscar satisfação e evitar desprazer — e do princípio de realidade, que leva em conta limites e consequências. O flerte digital vive numa zona intermediária: oferece satisfação imediata com a sensação de que nada “real” está acontecendo. A tela funciona como uma cena onde a pessoa pode experimentar uma versão de si que não cabe no cotidiano — algo próximo do que se discute sobre o alter ego, sem que sejam a mesma coisa.
Essas são leituras para reflexão, não conclusões comprovadas. A pesquisa empírica, por sua vez, mostra que insatisfação na relação, menor intimidade e oportunidade facilitada pela tecnologia se associam a mais comportamentos de infidelidade online — associação não é causa, e cada história é singular.
Flertar não significa querer um encontro
Muitas pessoas nunca pretendem sair da tela. O flerte serve como fantasia, regulação do humor ou fuga momentânea. Isso não torna o comportamento neutro: para muitos casais, uma troca íntima escondida já é sentida como traição, mesmo sem contato físico. O que conta é o acordo do casal e o fato de estar escondido.
Histórias do dia a dia
Luciana, 42 anos, começou a conversar com um antigo colega de faculdade. “Ele lembra de quem eu era antes de ser mãe”, diz. Ela não quer encontrá-lo; quer, talvez, encontrar a si mesma.
Bianca percebe que pega o celular sempre que discute com o marido. A conversa externa virou um jeito de não sentir a briga.
Perguntas que ajudam a entender seus limites
Algumas questões podem ajudar a compreender onde você está:
- Eu mostraria essa conversa ao meu parceiro?
- O que sinto quando a mensagem não chega?
- Essa troca me aproxima ou me afasta da minha relação?
- O que estou deixando de dizer em casa?
Se essas perguntas trazem culpa ou pensamentos repetitivos, leia também por que não paro de pensar.
Caminhos possíveis
- Nomear o que a conversa oferece: elogio, escuta, excitação, fuga?
- Perguntar se essa necessidade pode ser falada na relação.
- Reconhecer o custo do segredo para você e para o outro.
- Procurar escuta profissional individual ou de casal se o padrão se repete ou gera sofrimento.
Para pensar a dinâmica do casal, veja também por que alguns casais deixam de transar em casa e ressentimento no relacionamento.
Dúvidas comuns
Flertar pelo celular é traição? Depende dos acordos do casal. Para muitos, a troca íntima escondida já rompe a confiança.
Isso quer dizer que ela não ama o parceiro? Não necessariamente. Pode coexistir com afeto e indicar necessidades não atendidas.
Homens também fazem isso? Sim. O comportamento aparece em todos os gêneros.
Referências
- FREUD, S. Formulações sobre os dois princípios do funcionamento psíquico (1911). In: Obras completas.
- HERTLEIN, K. M.; PIERCY, F. P. Internet infidelity: a critical review of the literature. The Family Journal, 14(4), 2006.
- PEREL, E. Casos e casos: repensando a infidelidade. Rio de Janeiro: Objetiva, 2018.
- MCDANIEL, B. T. et al. Is Facebook flirting harmful? Journal of Social and Personal Relationships, 2017.
Kesler Soares Pereira | Cronos DH


